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Econômica e sustentável, cultura da carona se expande no Brasil por meio de aplicativos

Postado em 15/set/2017


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Proliferação das mídias digitais associada à formação de uma sociedade em rede alavanca a prática da carona no país. Ha aplicativos para uso corporativo e até específicos para viagens longas

São Paulo – Morador do Recreio dos Bandeirantes, zona oeste da cidade do Rio de Janeiro, Nabil Rizkallah pega carona quase diariamente para ir e voltar do local de trabalho, na Barra da Tijuca, também na região oeste. Faz isso há cerca de sete meses, desde que a empresa começou a oferecer o serviço de carona do aplicativo Bynd.

“É muito legal, uso quase todo dia. Acredito ser importante por reduzir o número de carros nas ruas, reduzir a poluição, o uso de gasolina, é bom para a sociedade e o meio-ambiente”, explica o gerente de segurança da Nokia no Brasil.

Criado há três anos, foi no último ano e meio que o aplicativo Bynd cresceu e ampliou sua carteira de clientes para os 10 que tem atualmente, entre eles a Porto Seguro, Nokia, Mercado Livre, Schneider Electric e Avon. O foco são empresas com mais de 150 funcionários, que pagam uma mensalidade para o aplicativo e disponibilizam o serviço para seus empregados, sem custo algum para eles. O valor mensal varia de acordo com o número de trabalhadores da empresa. Por sua vez, os empregados se cadastram na plataforma e passam a oferecer e ganhar carona dos colegas.

Para Nabil Rizkallah, além dos benefícios ambientais, o uso do aplicativo tem também a vantagem de estreitar a amizade com colegas de trabalho. Em seu trajeto diário do Recreio até a Barra, um percurso que leva entre 40 minutos e uma hora, ele diz ser tempo suficiente para uma boa conversa.

“Dá pra conversar sobre a empresa, os colegas, sobre o trabalho. Por pegar carona com quem mora perto de mim, também trocamos dicas de lugares para ir com a família, um restaurante, algo assim. Tem muita coisa que dá pra compartilhar até chegar no trabalho”, explica o gerente da Nokia. Por meio do aplicativo, ele diz já ter conhecido inclusive colegas novos.

Nabil enaltece a iniciativa da empresa em que trabalha por oferecer o serviço. Segundo ele, a preocupação com o meio-ambiente e com o lado humano dos empregados é uma característica da Nokia. “A empresa procura aplicar na prática seus valores pessoais e ambientais”, avalia.

Moradora de São Paulo, Natara Clissi é consultora de Tecnologia da Informação e precisa ir a Campinas três vezes por semana devido ao seu trabalho. Desde dezembro de 2015, oferece carona por meio do aplicativo Blablacar para o trajeto de ida e volta. Conheceu o aplicativo por intermédio de um grupo de caronas no Facebook e, desde então, está satisfeita com a experiência.

“Para mim tem sido bem útil. Me dá a possibilidade de morar em uma cidade e trabalhar em outra com pouco gasto”, explica Natara, de 28 anos.

Fundado na França em 2006, o Blablacar existe no Brasil desde o final de 2015. Já em seu primeiro ano de funcionamento intermediou cerca de um milhão de assentos em carona, em mais de 25 mil rotas pelo país. Em 2017, os dados mostram que o uso do aplicativo segue crescendo rapidamente em seu segundo ano de atividade.

Ao contrário do Bynd, de uso exclusivamente corporativo entre funcionários de uma mesma empresa, o Blablacar é um aplicativo de carona para longa distância entre desconhecidos. Suas viagens tem, em média, 250 quilômetros de percurso e em 37% dos casos a razão do deslocamento é visitar pais e familiares. Visitar namorado (a) ou amigo (a) vem logo em seguida, com 26% dos motivos de quem usa o aplicativo, enquanto as viagens de negócios representam 18%.

“Quanto a segurança, eu tento analisar as pessoas pelas avaliações que são feitas pelos motoristas. É muito importante a avaliação tanto de quem oferece quanto de quem pega a carona”, explica Natara Clissi.

Na lógica do aplicativo Blablacar, motoristas indicam sua rota e o número de assentos disponíveis, enquanto os passageiros interessados em pegar carona acessam a plataforma para encontrar lugares vagos de acordo com seu destino. A partir de então, ambos se conectam para dividir os custos da viagem.

Novas possibilidades

Na revolução das mídias digitais e da sociedade em rede, o uso de aplicativos de carona no Brasil é um fenômeno recente. Para o diretor do Blablacar Ricardo Leite, o Brasil é “perfeito” para o desenvolvimento do aplicativo, por ser um país muito grande em termos de área, população e frota de veículos – são em torno de 50 milhões de automóveis, combinado com poucas alternativas de transporte, passagens aéreas caras, além de muitos destinos turísticos e pessoas interessadas neles.

Segundo o diretor, o apelo econômico, em comparação com outros meios de transporte, é a principal vantagem da plataforma, mas o que faz as pessoas continuarem usando-a é também um aspecto social. “Você acaba conhecendo muita gente interessante. É uma experiência social muito bacana”, avalia Ricardo Leite.

Os dados da empresa mostram que 81% das caronas são para o “uso funcional”, ou seja, visitar parentes, amigo (a), namorado (a) ou trabalho. A faixa etária de quem mais usa o serviço, com 42%, é entre 26 e 35 anos de idade.

Com cerca de 25 mil rotas em atividade no país, a plataforma registrou no primeiro ano, como os trajetos mais populares: São Paulo-Campinas; São Paulo-Rio de Janeiro; Florianópolis – Porto Alegre; Belo Horizonte-São Paulo; Florianópolis-São Paulo; Curitiba – São Paulo; Belo Horizonte-Rio de Janeiro; Curitiba-Florianópolis; Ribeirão Preto-São Paulo; e Florianópolis-Joinville. Um recorte por região mostra que São Paulo é o estado com o maior volume de viagens.

Apesar do sucesso do Blablacar, Ricardo Leite analisa a existência de uma certa barreira cultural, principalmente no aspecto da segurança. Para atenuar esse fator, ele explica que tanto o motorista que oferece a carona quanto o caroneiro efetuam um cadastro no aplicativo, com diversas informações tornadas públicas, além das avaliações que um faz do outro, disponível para todos os usuários da plataforma.

“Como as viagens costumam ser programadas com alguns dias de antecedência, é possível já ver com quem se irá viajar”, explica Ricardo Leite. Entre as informações disponibilizadas está o histórico da pessoa, telefone, documentação, entre outros detalhes confirmados pelo aplicativo.

“Mesmo não conhecendo a pessoa, com as informações que a plataforma juntou sobre ela, se passa a confiar”, afirma o diretor da Blablacar, ponderação confirmada pela usuária Natara Clissi.

“Mais de 90% dos usuários vem do boca a boca, o que é a consequência da segurança do aplicativo. Quando as pessoas descobrem uma maneira que é mais barata de viajar e é também uma experiência agradável, elas começam a falar com os amigos. Alguém que tem uma barreira de desconfiança, quando ouve o relato de um amigo, passa a confiar muito mais e então usa”, diz Ricardo Leite, enfatizando que o motorista não lucra por oferecer a carona, pois são viagens que aconteceriam de qualquer forma.

Carona verde

O modelo de carona corporativa desenvolvido pelo Bynd nasceu após a viagem de carro de cinco amigos de São Paulo até o Alasca, ao longo de 13 meses. No retorno, dois deles, profissionais do mercado financeiro, decidiram fundar o aplicativo.

Na opinião de Lara Pascom, responsável pela comunicação do Bynd, a proposta do aplicativo surge como solução do problema do trânsito nas cidades. Segundo ela, há estudos que indicam que mais de 60% de quem trabalha em empresa, usa o carro para ir da casa ao local do emprego, em veículos ocupados por apenas uma pessoa.

Lara destaca que o uso do aplicativo de carona reduz o número de carros nas ruas e, como consequência, reduz também a emissão de gás carbônico. “São índices que mostram para as empresas algo que elas podem incluir em seus relatórios de sustentabilidade. Muitas vezes, as empresas não mensuram o impacto ambiental que elas causam”, explica.

Ela cita ainda o aspecto do networking entre os usuários da empresa, que se descobrem viver perto um do outro e estreitam relação. “Não temos feedback negativo.” De acordo com Lara Pascom, os usuários do Bynd são, em geral, pessoas que estão descobrindo a possibilidade da carona como meio de transporte para o trabalho, enquanto outros já tinham o hábito e, para esses, a plataforma se tornou um facilitador.

Toda carona vale 200 pontos, seja para o motorista ou o passageiro. Se o motorista tiver dois caroneiros, são 500 pontos para ele e, se forem três, 800. Os pontos podem ser trocados no programa Multiplus. “Isso torna a carona mais atrativa”, explica Lara. Quem convida um colega de trabalho a entrar na plataforma também ganha pontos.

Segundo a responsável pela comunicação do Bynd, o aspecto da segurança é facilitado pelo fato dos usuários saberem que a outra pessoa é um colega da empresa, ainda que eles não se conheçam pessoalmente. “Isso acaba inibindo problemas porque é um círculo social restrito.”

Para melhorar a segurança, o aplicativo oferece um filtro específico para o uso feminino, de modo que a carona seja agendada somente entre elas. “Há mulheres que se sentem mais seguras com outra mulher”, explica. Apesar dessa possibilidade, diz ela, o filtro é pouco usado.

As vantagens da empresa oferecer o serviço de carona entre seus funcionários é reconhecida por Malena Martelli, vice-presidente de recursos humanos da Schneider Electric.

“A empresa já tem a cultura da sustentabilidade, faz parte do nosso DNA, então para os nossos funcionários qualquer coisa sobre esse tema é bem recebido. Não tivemos nenhuma resistência, pelo contrário, houve uma grande aceitação”, relata Malena.

A Schneider Electric começou a oferecer o serviço há dois meses. Nesse curto período, cerca de 500 funcionários criaram perfil no aplicativo e mais de mil caronas foram feitas. Por ser um modelo que envolve apenas os trabalhadores da empresa, a vice-presidente de recursos humanos diz ter havido “zero de preocupação” com a questão da segurança. “Se é um funcionário nosso, ele já foi selecionado dentro dos nossos critérios”, enfatiza.

Segundo Malena Martelli, mesmo os empregados que ainda não usam a carona se mostram satisfeitos com a iniciativa da companhia. “Há um sentimento de orgulho da empresa oferecer algo mais condizente com o momento do planeta”, pondera.

Em tempos de redes sociais e uso crescente das mídias digitais, parece que a cena do dedão levantado na beira da estrada começa a ser uma imagem do passado.

Fonte: Rede Brasil Atual


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